São quase duas da manha e continuo sem vontade de fechar o computador e tentar dormir.
Tenho medo.
Sei que vou demorar um par de horas a finalmente adormecer, e durante todo esse tempo estarei a pensar em coisas que não devo
Apetece-me ler um bom livro, um daqueles que me faz esquecer a realidade à minha volta. Pretendo encontra-lo amanha, é quase uma obrigação fazê-lo.
O problema em toda esta situação é a minha cabeça. Penso sempre demasiado nas coisas, e o que normalmente é simples, transformar-se num dos maiores problemas da humanidade.
Talvez a minha avó tenha razão e eu precise mesmo de ajuda. (not)
E ironicamente começou a tocar Frank Ocean. Obrigado pelo timing perfeito.
O que eu deveria fazer, se vivesse numa realidade alternativa, era viajar durante uns bons meses, ir a todos os lugares que sempre quis visitar (começando por NY) e voltar uma pessoa completamente diferente.
Em primeiro lugar, ia deixar de me preocupar tanto com coisas estúpidas. Ia fazer uma selecção de coisas que valem a pena e pôr todo o resto fora da minha vida.
Para começar, faria boas acções: Não por causa das aparências, mas sim porque me faria sentir bem.
Ajudaria a minha consciência a ficar tranquila.
Depois, ia resolver assuntos pendentes. Provavelmente falaria com a minha mãe pela primeira vez em anos. E talvez a última, não sei.
Diria-lhe que a perdoo por tudo. Que sei perfeitamente que ela nunca teve obrigação de me amar e de zelar por mim, portanto não há motivo para lhe guardar rancor.
Pediria-lhe também desculpa por não a ter ajudado, por a ter esquecido por completo.
Um capítulo seria fechado aí, nesse mesmo instante.
O passo seguinte seria visitar a sepultura do meu pai e pedir-lhe desculpa por ser uma pessoa horrível e por não ser suficientemente boa para ser chamada de sua filha.
Iria pedir desculpa por raramente rezar por ele. Por me esquecer, às vezes, do seu aniversário.
Faria promessas que iria tentar cumprir e deixava-lhe as minhas flores favoritas para ele se lembrar de mim de vez em quando.
Depois, os meus avós. Aqui é mais complicado.
Eu sou uma péssima neta.
Raramente lhes agradeço por alguma coisa, e isolo-me. Esqueço-me que eles são o mais próximo de pais que alguma vez tive, e digo tantas coisas injustas. Tantas.
Sou uma pessoa zangada por natureza, e infelizmente só magoo os que me são mais chegados.
Iria...pedir desculpa por os ter feito sofrer tanto. Especialmente entre os meus 14 e 17 anos.
Diria-lhes que os adoro e que não mereço nada do que eles fazem para me ver bem.
Que foi e é tudo um desperdício de tempo e dinheiro.
Quando tive anorexia, lembro-me que a minha avó chorava quase todos os dias.
O meu avó não sabia o que fazer, e raramente falava comigo. Era como se eu não estivesse ali mais.
Eu dizia-lhes todos os dias que os odiava e que eles não estavam a tentar a ajudar-me. Todos os dias.
Fechava-me no quarto durante horas. Deixei de me importar com todo o resto, completamente.
Fiz tanta coisa estúpida, tanta.
Nunca lhes irei pedir perdão por tudo isto. É inútil, eles não me vão conseguir perdoar.
Eu pelo menos não perdoaria.
Por último, desaparecia. De vez. Despedia-me das pessoas mais importantes, e pronto.
Não sei o passo seguinte, não é propriamente importante.
Apenas deixava tudo para trás e deixava de ser um fardo.
Mas infelizmente, a realidade é esta:
Nunca irei viajar, nunca irei falar com a minha mãe e nunca irei pedir desculpa.
Ficarei sempre agarrada ao passado e irei sempre ser assim, demasiado defeituosa para funcionar correctamente.
Portanto, não te culpo por não quereres saber de mim, por eu ser um nada na tua vida.
Já é hábito. E talvez seja melhor assim. Acabaria por desiludir-te e serias apenas mais uma pessoa a quem eu deveria um pedido de desculpas, que nunca chegaria a ser entregue.
Entretanto, já passa das duas. Great.
Boa noite.