fevereiro 27, 2011

Eu era tudo
Eu nunca gostei de pintar, desenhar ou qualquer outra coisa
O meu alimento é a escrita
Pensei que eu e ela nos entendia-mos como o frio a a lareira, éramos como amigos mortais
Precisávamos um do outro porque éramos exactamente o oposto
eu preciso que as palavras queimem a minha carne, que cicatrizem na minha pele
Preciso que caiam em cima dela como flocos de neve, que eu as sinta derreter enquanto absorvo a aura que elas inalam
Eu faço parte delas, e depois, elas fazerão parte de mim
Somos uma bela melodia inacabada.
Não há quaisqueres instrumentos. Só um maestro, sozinho no meio do nada.
Tem os olhos fechados e respira fundo antes de prosseguir com a marcha
Letras formam frases, frases formam orações.
As minhas orações
Não rezo a um Deus celeste, a ninguém em particular
Talvez a quem me ouça
A quem não me ignore
Acho que as frases são me dirigidas. A mim
Não me considero suficientemente boa com discursos. Hesito muito. Gaguejo por vezes. Mas gosto de escrever. Gosto de riscar linhas inteiras.
Reescrever a minha vida, o meu destino
Julgar o meu passado
Decidir o meu futuro
Pôr de lado o meu presente
Felizmente posso escolher pô-lo de lado
Vejo-me como uma melodia, sim
Não daquelas normais, banais
Não, eu sou algo único
Não quero mudar o mundo, eu vou mudar o mundo
Esperem: não falei claramente. O mundo a que eu me refiro não é o que vocês provavelmente conhecem
Eu saboreio cada respiração, cada suspiro que sai dentro de mim
Eu suporto a angustia sozinha
O medo e desilusão
Nunca escondi quem eu era de ninguém.
Mas as pessoas recusam-se a ver-me
A levar-me a sério
Encarem isto como um aviso, um bom aviso: eu sou a nova definição de vilã.
Esqueçam os livros de banda desenhada, os filmes de ficção cientifica.
Eu tenho coração.
Eu sinto.
Eu sou o mais humana que vocês alguma vez serão.
A nova definição que quero dar ao mundo é mais original: uma parede branca.
Uma caneta de filtro preta
Histórias para contar
Umas boas
Outras más
Quero causar controvérsia
Originar um revolução de pensamentos, de papel
Quero despir todas as bibliotecas do mundo e dar aos que necessitam
Quero sair de casa com vontade de sair
E entrar nela com vontade de voltar a sair
A nova vilã que o mundo irá ver, pode matar pessoas, roubar, cometer injustiças. Tudo numa só parede. Na minha parede.
Umas coisas podem ser inventadas, outras reais. Mas ao fim do dia, vão-se misturar e brindar o mundo com as cores mais belas que ele já viu.
Um dia, na minha vida, é o que ninguém quer ter, mas que secretamente todos querem viver.
Vejam: eu pairo sobre o mundo como uma asa. Eu consigo voar quando estou com a parede, quando aperto a caneta de filtro preto na mão.
Subitamente, tudo volta ao normal. Quando lavo as mãos, quando escorre da pele delas a tinta. Quando as seco. Desvanecem-se as palavras como areia. Mas o que vocês não sabem - e que vão passar a saber - é que eu sou igualzinha um deserto. Donde esta veio, há muita mais.