Por momentos, por longos ou pequenos que sejam, pensem no seguinte: o que é um Homem?
O que é um Homem quando se lhe é retirado tudo, até a sua essência?
O que é um Homem quando a esperança passou apenas a ser uma palavra e o medo o sentimento predominante?
O que é um Homem quando deixa de saber o que é a felicidade e esquece-se de que o coração tem uso?
Comecei a ler este livro, 'Se isto é um Homem', do escritor e outrora prisioneiro de um campo de concentração Nazi, Primo Levi. O livro não pretende fazer acusações ou ser demasiado melancólico. Pretende exclusivamente ser real e objectivo. Lembrar ao mundo que o mal existe. Aliás, ele está dentro de nós, sempre o estará.
O problema é quando esse mal, entranhado e escondido nos nossos corações, ganha voz.
Fica aqui um pequeno excerto.
'Estamos transformados nos fantasmas que havíamos deslumbrado na noite passada. Então pela primeira vez nos demos conta de que nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa, a destruição de um homem. Em um instante, com intuição quase profética, a realidade nos é revelada: chegamos ao fundo. Mais fundo que isso não se pode chegar: uma condição humana mais miserável não existe tampouco se pode imaginar. Não temos nada nosso: tiraram-nos as roupas, os sapatos e até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão, e caso nos escutassem, não nos entenderiam. Até mesmo o nome nos tiraram: e se quisermos conservá-lo deveremos encontrar dentro uma força arquitetada de tal maneira que, atrás do nome, algo nosso, algo do que um dia fomos, enfim permaneça.
Pois imaginem agora um homem a quem, além de suas pessoas amadas, roubem-lhe também a casa, os costumes, as roupas, tudo, literalmente tudo o que possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à necessidade, vazio de dignidade e de juízo, porque àqueles que perderam tudo ocorre que se perdem a si mesmos [...]'