Tentei não pensar
Tentei não sentir
Tentei fechar os olhos do meu coração
Os que sentem mais do que qualquer parte do meu corpo
Doeu
Dói intensamente
É uma espécie de ferida que não cicatriza
Que se alimenta das palavras que não são ditas
Dos momentos que não são vividos e das mãos que não se entrelaçam
O que faço eu quando o meu estômago parece rebentar
Quando os meus olhos parecem não secar e quando a minha boca não se abre?
Ouço
Escuto as palavras que muito bem podiam ser minhas
As letras que podiam ter sido inventadas por mim
Roubo-as e dou-lhes um significado próprio
Sabe tão bem, tão mal
Queria que tivesses visto o que eu sonhei
O Que recuso a aceitar porque não tenho espaço
Porque tenho medo (?)
Quero uma explicação lógica, uma que se encaixe no puzzle que está a começar a ser preenchido
A imagem que ainda não observei vai ser completada completamente às escuras
Uma peça de mim encaixa no canto, outra no meio
Tu vais ser completado em breve
Eu sei que és tu que está estampado na caixa
és tu que vai ser acabado e depois queimado
Sou eu que vou morrer
Conheço os sintomas embora pareçam tão novos, tão frescos
A minha pele reconhece-os
Eu temo-os
São demasiado grandes para o meu corpo
Demasiado intensos para a minha pequena bomba
Ouve: eu não te quero, não te amo, não te vejo em todo o lado
Não estremeço quando ouço o teu nome, quando te vejo, quando baixo os olhos
Quando sei que olhas para mim, quando me viras as costas, quando estás ao meu lado
Não sonho contigo dentro de mim, com os teus lábios junto dos meus, com o teu odor
Não choro por ti, não grito, não penso sequer em ti
Não sei o teu nome, os teus versos, as tuas histórias
Não as quero saber
Não quero que me conheças, não quero conhecer-te
Por favor, que isto seja um sintoma de loucura
Por favor que haja medicação para isto
Por favor
